Notícias‎ > ‎

O jornalismo da emigração

postado em 15 de mai de 2011 09:56 por Fernanda Weiden

Vou aproveitar o aniversário do site Direto da Redação, editado em Miami, para falar do jornalismo da emigração, já que uma boa parte dos leitores do Direto estão nos EUA, e o próprio site faz parte do cojunto de iniciativas de emigrantes no Exterior.

Muitas das colunas redigidas pela equipe do Eliakim Araújo, jornalistas de formação e ideologia diferentes, são publicadas em jornais das comunidades emigrantes brasileiras, funcionando nisso como um centro redistribuidor de idéias, informações e críticas para os brasileiros vivendo nas terras de Obama.

É fazendo que se aprende e foi lutando pela Pec 272.00 contra uma injustiça aos filhos dos emigrantes, que venho aprendendo a questão emigrante dentro de uma visão internacional e não apenas local.

A I Conferência das Comunidades Brasileiras no Exterior foi uma importante iniciativa do governo e do Ministério das Relações Exteriores e nos levará sem dúvida a grandes soluções, como também acredita o entusiasta presidente da Funag, o embaixador Jerônimo Moscardo.

Porém, os relatórios, que acabam de ser publidados no Portal Consular, mostrando as reivindicações das comunidades emigrantes nos diversos continentes, quase duas centenas, evidenciam uma falha principal – a falta de uma uma visão global da questão emigrante por muitos representantes, no encontro do Rio, que dificulta uma emancipação do movimento emigrante.

Insiste-se em pedir ao Ministério das Relações Exteriores e ao governo que solucionem questões corriqueiras ligadas aos consulados ou questões mais urgentes de importância vital, sem se querer dar o passo decisivo da independência que leva à exigência e à elaboração de leis e à criação de uma estrutura dirigida pelos próprios emigrantes.

Misturam-se encontros e iniciativas de promoções e objetivos diversos, como se o simples fato de se divulgar debates tivesse o poder de mudar a realidade e de fazer, o que se diz em direito, jurisprudência na matéria.

O exemplo mais marcante dos resultados dessa troca de boas intenções e suas pequenas repercussões junto aos emigrantes, é o ocorrido com os filhos dos emigrantes até há pouco sem o direito de serem brasileiros natos.

Um dos simpatizantes do nosso movimento Estado do Emigrante contou em toda sua singeleza – eles criticam o movimento dos Brasileirinhos Apátridas porque – disse ele - qualquer um poderia ter feito. Mas o mesmo simpatizante retorquiu – e por que, então, eles não fizeram?

É verdade, nos encontros anteriores promovidos por iniciativas diversas, houve temas importantes, muito papel impresso mas nenhuma luta prática para resolver uma situação que seria catastrófica em 2012. As discussões de Ongs com passado de luta em termos de emigração, com subvenções e como apoio externo, não conseguiam chegar ao emigrante pai, mãe, mal informado e tantas vezes alienado na sua luta pela sobrevivência.

Foi preciso um movimento de cidadania, popular, rolando pelo Orkut e pela imprensa da emigração, sem textos acadêmicos, mostrando de um lado do problema o descaso das autoridades, a má informação a respeito, assim como o interesse de outros pelo que renderia essa mina de crianças apátridas em termos de trabalhos de despachantes e de advogados, sem que os donos do movimento emigrante saíssem à rua e mobilizassem os principais interessados, nós os emigrantes.

Matamos a galinha de ovos de ouro – com o apoio de parlamentares preocupados com a solução imediata de problemas, como Lúcio Alcântara, Carlito Merss, Rita Camata, Cristovam Buarque – e isso desagradou porque foi um movimento vindo de baixo para cima, quase espontâneo, na base do benevolato, mas por isso mesmo irritantemente autêntico.

Já que matamos a galinha agora queremos matar também o galo – queremos acabar com o vício do assistencialismo, com a medicamentação do analgésico, que não cura mas dá prestígio a quem faz passar a dor. E pedir autonomia para os emigrantes, que sua politica seja feita à parte e não dependa da boa vontade do Ministério da Relações Exteriores, que assumam a solução de seus problemas irrita porque vai quebrar muita estrutura criada para viver do que até agora não tinha solução.

E aqui chegamos, então, à imprensa da emigração sempre ignorada e mesmo esnobada pela grande imprensa brasileira. Os pequenos e médios empresários da imprensa emigrante têm uma importante missão nos países onde editam seus jornais, revistas e rádios – o de criar uma nova mentalidade entre os emigrantes: a de que nosso futuro depende de nós mesmos e não de Brasília ou de tal Ong ou de tal entidade filantrópica.

A criação de um Estado do Emigrante vai criar uma nova dinâmica entre os emigrantes e uma dinâmica institucional com incentivos para a criação de escolas bilingues, desenvolvimento da imprensa da emigração, projetos culturais que não sejam as batidas e manjadas festas brasileiras. Um sociólogo e comunicador amigo me chamou mesmo a atenção para os oportunos textos do educador Paulo Freire sobre imigração que se tornam atuais e se adaptam à nossa emigração.

Vamos pensar sério e grande – se todos os jornais e revistas da emigração apoiarem o projeto do Estado do Emigrante já estaremos elegendo nossos deputados na próxima legislatura.

E para botar mais pimenta vamos escrever, em nome dos Brasileirinhos Apátridas e do Estado do Emigrante, ao presidente Lula para abrir uma nova frente inovadora no seu governo – criar o Ministério da Emigração, encarregado de lançar as estruturas do órgão executivo do Estado do Emigrante, como ele vai funcionar e legislar. E para ministro, por que não o Cristovam Buarque ?

Comments